Whats: (11) 9 9191 6085

VÍDEO: POR QUE NOS PARECE QUE NADA DA CERTO

Você está em: Página inicial / Terapias / Mamãe e o sentido da vida Página 2
Mamãe e o sentido da vida

Livro: Mamãe e o sentido da vida Página 2

Autor - Fonte: Irvin D. Yalom

Ir para a página:
...para a frente — sem titubear no estande da Torta Gelada do Urso Polar, na montanha-russa dupla ou na roda-gigante — para tomar meu lugar na fila dos bilhetes para o trem fantasma. Comprado o bilhete, espero o carrinho seguinte fazer a curva e parar num solavanco à minha frente. Depois de entrar e abaixar a barra de segurança, para me prender confortavelmente no assento, dou uma última olhada ao redor — e lá, em meio a um pequeno grupo de pessoas, eu a vejo. Aceno com os dois braços e chamo, alto o bastante para todo mundo ouvir: "Mamãe! Mamãe!" Nesse exato momento, o carrinho arranca e bate na porta dupla, que se abre num vaivém e revela a boca negra escancarada. Inclino-me para trás o máximo que posso e, antes de ser engolido pela escuridão, chamo novamente: — Mamãe! Mamãe! Como me saí, mamãe? Como é que eu me saí? Mesmo quando levantei a cabeça do travesseiro e tentei me desvencilhar do sonho, as palavras ficaram presas em minha garganta: — Como me saí, mamãe? Mamãe, como é que eu me saí? Mas mamãe está sete palmos embaixo da terra. Mortinha da silva há dez anos, num caixão de pinho comum num cemitério de Anacostia, nos arredores de Washington. O que resta dela? Apenas ossos, suponho. Não há dúvida de que os micróbios acabaram com todos os restos de carne. Talvez sobrem algumas mechas de cabelos finos e grisalhos — talvez alguns vestígios brilhantes de cartilagem continuem presos nas pontas dos ossos maiores, o fêmur e a t...
bia. E, ah, sim, a aliança. Aninhada em algum lugar da poeira de ossos deve estar a fina aliança de casamento de prata filigranada, que meu pai comprou na rua Hester pouco depois de eles chegarem a Nova York, na terceira classe do navio, vindos de uma shtetl russa a meio mundo de distância. Sim, faz muito tempo que ela se foi. Dez anos. Morta e decomposta. Nada além de cabelos, cartilagem, ossos e uma aliança de casamento de prata filigranada. E a imagem dela, rondando minhas lembranças e meus sonhos. Por que acenei para mamãe em meu sonho? Parei de dar adeusinho anos atrás. Quantos? Talvez décadas. Talvez tenha sido naquela tarde, há mais de meio século, quando eu tinha 8 anos e ela me levou ao Sylvan, o cinema do bairro, na esquina da loja de meu pai. Embora houvesse muitos lugares vazios, ela se plantou ao lado de um dos valentões do bairro, um garoto um ano mais velho do que eu. — Esse lugar está reservado, minha senhora — rosnou ele. — Sei, sei! Reservado! — retrucou minha mãe, com desdém, enquanto se instalava confortavelmente. — Esse aqui está guardando lugares, o manda-chuva! — anunciou para quem quisesse ouvir. Tentei desaparecer na almofada do assento de veludo castanho. Mais tarde, no cinema às escuras, criei coragem e virei devagar a cabeça. Lá estava ele, agora sentado algumas fileiras atrás, ao lado de seu amigo. Não havia engano, os dois olhavam fixo e apontavam para mim. Um deles balançou o punho e moveu os lábios, baixinho: — Depois! Mamãe estragou o cinema Sylvan para mim. Ele passou a ser território inimigo. Fora do alcance, ao menos à luz do dia. Se eu quisesse acompanhar os seriados de sábado — Buck Rogers, Batman, O besouro verde, Fantasma —, tinha que chegar depois de o filme começar, ocupar meu lugar no escuro, bem na parte de trás do cinema, o mais perto possível de uma saída, e ir embora instantes antes de as luzes voltarem a acender. Em meu bairro, nada era mais importante do que evitar a calamidade máxima que era levar uma surra. Ser esmurrado, isso não era difícil de imaginar: um soco no queixo, e pronto. Ou tomar um trompaço, um tabefe, um chute, um corte — era a mesma coisa. Mas levar uma surra. ai, meu Deus! Onde é que isso acabava? O que restava da gente? O sujeito ficava fora do jogo, eternamente rotulado com a etiqueta "levou uma surra". E acenar para mamãe? Por que eu haveria de acenar agora, quando, ano após ano, tinha convivido com ela em termos de uma inimizade ininterrupta? Ela era convencida, controladora, intrometida, desconfiada, rancorosa, extremamente obstinada e de uma ignorância abissal (mas inteligente — até eu conseguia ver isso). Não me lembro de ter compartilhado com ela um único momento caloroso, nem uma vez sequer. Nunca, jamais me orgulhei dela, nem pensei "fico muito feliz por ela ser minha mãe". Ela era dona de uma língua venenosa e dizia coisas maliciosas sobre todo mundo — exceto meu pai e minha irmã. Eu adorava...
inho: — Depois! Mamãe estragou o cinema Sylvan para mim. Ele passou a ser território inimigo. Fora do alcance, ao menos à luz do dia. Se eu quisesse acompanhar os seriados de sábado — Buck Rogers, Batman, O besouro verde, Fantasma —, tinha que chegar depois de o filme começar, ocupar meu lugar no escuro, bem na parte de trás do cinema, o mais perto possível de uma saída, e ir embora instantes antes de as luzes voltarem a acender. Em meu bairro, nada era mais importante do que evitar a calamidade máxima que era levar uma surra. Ser esmurrado, isso não era difícil de imaginar: um soco no queixo, e pronto. Ou tomar um trompaço, um tabefe, um chute, um corte — era a mesma coisa. Mas levar uma surra. ai, meu Deus! Onde é que isso acabava? O que restava da gente? O sujeito ficava fora do jogo, eternamente rotulado com a etiqueta "levou uma surra". E acenar para mamãe? Por que eu haveria de acenar agora, quando, ano após ano, tinha convivido com ela em termos de uma inimizade ininterrupta? Ela era convencida, controladora, intrometida, desconfiada, rancorosa, extremamente obstinada e de uma ignorância abissal (mas inteligente — até eu conseguia ver isso). Não me lembro de ter compartilhado com ela um único momento caloroso, nem uma vez sequer. Nunca, jamais me orgulhei dela, nem pensei "fico muito feliz por ela ser minha mãe". Ela era dona de uma língua venenosa e dizia coisas maliciosas sobre todo mundo — exceto meu pai e minha irmã. Eu adorava minha tia Hannah, irmã de meu pai; sua doçura, sua eterna amabilidade, seus cachorros-quentes grelhados, envoltos em fatias crocantes de mortadela, seu strudel incomparável (cuja receita, no que me diz respeito, está perdida para sempre, já que seu filho se recusa a mandá-la para mim — mas isso é outra história). Acima de tudo, eu adorava Hannah aos domingos. Nesse dia, sua delicatessen, perto do estaleiro da Marinha em Washington, ficava fechada, e ela punha jogos gratuitos na máquina de pinball e me deixava jogar por horas a fio. Nunca se opunha a que eu pusesse calçozinhos de papel sob os pés dianteiros da máquina, para diminuir a velocidade da descida das bolas e conseguir pontuações mais altas. Minha adoração por Hannah fazia mamãe ter acessos enlouquecidos de rancor contra a cunhada. Mamãe tinha sua ladainha sobre Hannah: a pobreza de Hannah, a aversão dela a trabalhar na loja, seu tino comercial precário, seu marido simplório, sua falta de orgulho e sua avidez por qualquer coisa de segunda mão. A fala de mamãe era abominável: um inglês de sotaque carregado, recheado de termos em iídiche. Ela nunca ia a minha escola no dia em que os pais e mães eram homenageados, nem às reuniões da Associação de Pais e Professores. Graças a Deus! Eu tremia só de pensar em lhe apresentar meus amigos. Eu brigava com ela, desafiava-a, gritava com ela, evitava-a e, por fim, em meados da adolescência, rompi relações com ela completamente. O grande qu...
minha tia Hannah, irmã de meu pai; sua doçura, sua eterna amabilidade, seus cachorros-quentes grelhados, envoltos em fatias crocantes de mortadela, seu strudel incomparável (cuja receita, no que me diz respeito, está perdida para sempre, já que seu filho se recusa a mandá-la para mim — mas isso é outra história). Acima de tudo, eu adorava Hannah aos domingos. Nesse dia, sua delicatessen, perto do estaleiro da Marinha em Washington, ficava fechada, e ela punha jogos gratuitos na máquina de pinball e me deixava jogar por horas a fio. Nunca se opunha a que eu pusesse calçozinhos de papel sob os pés dianteiros da máquina, para diminuir a velocidade da descida das bolas e conseguir pontuações mais altas. Minha adoração por Hannah fazia mamãe ter acessos enlouquecidos de rancor contra a cunhada. Mamãe tinha sua ladainha sobre Hannah: a pobreza de Hannah, a aversão dela a trabalhar na loja, seu tino comercial precário, seu marido simplório, sua falta de orgulho e sua avidez por qualquer coisa de segunda mão. A fala de mamãe era abominável: um inglês de sotaque carregado, recheado de termos em iídiche. Ela nunca ia a minha escola no dia em que os pais e mães eram homenageados, nem às reuniões da Associação de Pais e Professores. Graças a Deus! Eu tremia só de pensar em lhe apresentar meus amigos. Eu brigava com ela, desafiava-a, gritava com ela, evitava-a e, por fim, em meados da adolescência, rompi relações com ela completamente. O grande qu...

Ir para a página:

WhatsApp: (11) 9 9191 6085
Busca Google