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Mamãe e o sentido da vida

Livro: Mamãe e o sentido da vida Página 3

Autor - Fonte: Irvin D. Yalom

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...ebra-cabeça da minha infância era: como é que papai a suportava? Lembro-me de momentos maravilhosos nas manhãs de domingo, quando nós dois jogávamos xadrez e ele cantava alegremente com os discos de música russa ou judaica, com a cabeça balançando ao ritmo da melodia. Cedo ou tarde, o ar matinal era sacudido pela voz esganiçada de mamãe, gritando do andar de cima: "Gevalt, Gevalt, já chega! Vay iz mir, chega de música, chega de barulho!" Sem dizer nada, meu pai se levantava, desligava o toca-discos e retomava nosso jogo de xadrez em silêncio. Quantas vezes eu rezei: "Por favor, papai, por favor, só dessa vez, dê um soco nela e a mande embora!" Então, por que acenar? E por que perguntar, logo no fim da vida: "Como me saí, mamãe?" Seria possível — e essa possibilidade me deixou estarrecido — que eu houvesse passado minha vida inteira tendo essa mulher lamentável como minha platéia primária? A vida inteira procurei fugir, arrancar-me do meu passado — do shtetl, da terceira classe do navio, do gueto, do tallith, dos cantos religiosos, da gabardina preta, da mercearia. Toda a minha vida eu me esforcei em busca de libertação e crescimento. Seria possível que não houvesse escapado nem do meu passado nem de minha mãe? Os amigos que tiveram mães amáveis, refinadas, apoiadoras — como eu os invejo! E como é estranho que eles não fiquem amarrados a essas mães, não telefonem, visitem, sonhem ou mesmo pensem nelas com freqüência. Já eu tenho q...
e tirar minha mãe da cabeça várias vezes por dia, e ainda hoje, dez anos depois de sua morte, muitas vezes, num ato reflexo, pego o telefone para ligar para ela. Ah, consigo compreender tudo isso intelectualmente. Dei palestras sobre esse fenômeno. Explico a meus pacientes que os filhos que foram maltratados geralmente acham difícil desvencilhar-se de suas famílias disfuncionais, ao passo que os filhos crescem e se desligam com muito menos conflito de pais bondosos e amorosos. Afinal, não é essa a tarefa dos bons pais, habilitar os filhos a sair de casa? Compreendo, mas não gosto. Não gosto que minha mãe me visite todos os dias. Odeio o fato de ela ter se insinuado tanto nos interstícios da minha cabeça que não consiga nunca arrancá-la de lá. Acima de tudo, odeio o fato de me sentir compelido a perguntar, no fim da vida: "Como me saí, mamãe?" Pensei na poltrona superestofada de seu lar de idosos em Washington. Bloqueava parcialmente a entrada do apartamento dela e era ladeada por mesas que pareciam sentinelas, abarrotadas com pelo menos um exemplar, às vezes mais, de cada um dos livros que escrevi. Com mais de uma dúzia de livros e umas duas dúzias adicionais de traduções estrangeiras, as pilhas balançavam perigosamente. Bastaria, eu imaginava muitas vezes, um tremor de terra minimamente considerável para enterrar mamãe até o pescoço sob os livros de seu único filho. Toda vez que lhe fazia uma visita, eu a encontrava instalada naquela poltrona, com dois ou três de meus livros no colo. Ela os pesava, cheirava, acariciava — fazia tudo, menos lê-los. Estava cega demais. Mesmo antes de sua visão falhar, entretanto, ela não teria conseguido compreendê-los: a única instrução que havia recebido fora nas aulas de naturalização para se tornar cidadã norte-americana. Sou escritor. E mamãe não sabia ler. Mesmo assim, recorro a ela para buscar o sentido do meu trabalho. Para ser avaliado de que modo? Pelo cheiro, pelo simples peso de meus livros? Pelo desenho da capa, pela suave sensação de Teflon lubrificado da sobrecapa? Todas as minhas pesquisas esmeradas, meus rasgos de inspiração, minha busca meticulosa do pensamento correto, da frase elegante e fugidia: esses ela jamais conheceu. O sentido da vida? O sentido da minha vida. Os próprios livros empilhados e balançando na mesa de mamãe continham respostas pretensiosas a essas perguntas. "Somos criaturas que buscam sentido", escrevi, "que têm de lidar com o inconveniente de serem lançadas num universo que, intrinsecamente, não tem sentido algum". E assim, para evitar o niilismo, expliquei, temos de embarcar numa tarefa dupla. Primeiro, inventamos ou descobrimos um projeto que dê sentido à vida e seja vigoroso o bastante para sustentá-la. Depois, precisamos dar um jeito de esquecer nosso ato de invenção e nos convencer de que não inventamos, e sim descobrimos, o projeto que dá sentido à vida — convencer-nos de que ele tem uma existência i...
, com dois ou três de meus livros no colo. Ela os pesava, cheirava, acariciava — fazia tudo, menos lê-los. Estava cega demais. Mesmo antes de sua visão falhar, entretanto, ela não teria conseguido compreendê-los: a única instrução que havia recebido fora nas aulas de naturalização para se tornar cidadã norte-americana. Sou escritor. E mamãe não sabia ler. Mesmo assim, recorro a ela para buscar o sentido do meu trabalho. Para ser avaliado de que modo? Pelo cheiro, pelo simples peso de meus livros? Pelo desenho da capa, pela suave sensação de Teflon lubrificado da sobrecapa? Todas as minhas pesquisas esmeradas, meus rasgos de inspiração, minha busca meticulosa do pensamento correto, da frase elegante e fugidia: esses ela jamais conheceu. O sentido da vida? O sentido da minha vida. Os próprios livros empilhados e balançando na mesa de mamãe continham respostas pretensiosas a essas perguntas. "Somos criaturas que buscam sentido", escrevi, "que têm de lidar com o inconveniente de serem lançadas num universo que, intrinsecamente, não tem sentido algum". E assim, para evitar o niilismo, expliquei, temos de embarcar numa tarefa dupla. Primeiro, inventamos ou descobrimos um projeto que dê sentido à vida e seja vigoroso o bastante para sustentá-la. Depois, precisamos dar um jeito de esquecer nosso ato de invenção e nos convencer de que não inventamos, e sim descobrimos, o projeto que dá sentido à vida — convencer-nos de que ele tem uma existência independente "lá fora". Embora eu finja aceitar sem julgamento as soluções encontradas por cada pessoa, secretamente eu as classifico como sendo de bronze, prata e ouro. Algumas pessoas são instigadas pela vida afora por uma visão de triunfo vingativo; outras, imersas no desespero, sonham apenas com a paz, o desapego e o libertar-se da dor; algumas dedicam a vida ao sucesso, à opulência, ao poder ou à verdade; outras buscam a autotranscendência e mergulham numa causa ou em outro ser — um ente querido ou uma essência divina; outras, ainda, encontram o sentido numa vida de prestação de serviços, no pleno desenvolvimento pessoal ou na expressão criativa. Precisamos da arte, disse Nietzsche, para que a verdade não nos destrua. Daí eu considerar a criatividade como a via regia e ter transformado minha vida inteira, todas as minhas experiências, todas as minhas fantasias, na mistura íntima a partir da qual tento modelar, de tempos em tempos, alguma coisa nova e bonita. Mas meu sonho apontava numa outra direção. Dizia que eu tinha dedicado minha vida a um objetivo bem diferente — ganhar a aprovação de minha falecida mamãe. Essa acusação do sonho era forte: muito forte para ser ignorada e perturbadora demais para ser esquecida. Mas aprendi que os sonhos não são inescrutáveis nem imutáveis. Durante a maior parte de minha vida, tenho trabalhado com eles. Aprendi o modo de domesticá-los, desmontá-los e recompô-los. Sei como extrair os segredos de...
ndependente "lá fora". Embora eu finja aceitar sem julgamento as soluções encontradas por cada pessoa, secretamente eu as classifico como sendo de bronze, prata e ouro. Algumas pessoas são instigadas pela vida afora por uma visão de triunfo vingativo; outras, imersas no desespero, sonham apenas com a paz, o desapego e o libertar-se da dor; algumas dedicam a vida ao sucesso, à opulência, ao poder ou à verdade; outras buscam a autotranscendência e mergulham numa causa ou em outro ser — um ente querido ou uma essência divina; outras, ainda, encontram o sentido numa vida de prestação de serviços, no pleno desenvolvimento pessoal ou na expressão criativa. Precisamos da arte, disse Nietzsche, para que a verdade não nos destrua. Daí eu considerar a criatividade como a via regia e ter transformado minha vida inteira, todas as minhas experiências, todas as minhas fantasias, na mistura íntima a partir da qual tento modelar, de tempos em tempos, alguma coisa nova e bonita. Mas meu sonho apontava numa outra direção. Dizia que eu tinha dedicado minha vida a um objetivo bem diferente — ganhar a aprovação de minha falecida mamãe. Essa acusação do sonho era forte: muito forte para ser ignorada e perturbadora demais para ser esquecida. Mas aprendi que os sonhos não são inescrutáveis nem imutáveis. Durante a maior parte de minha vida, tenho trabalhado com eles. Aprendi o modo de domesticá-los, desmontá-los e recompô-los. Sei como extrair os segredos de...

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