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Jaime Klintowitz

Matéria: Descartes - A razão acima de tudo

Autor - Fonte: Jaime Klintowitz

O filósofo diz: Penso, logo existo e lança as bases da grande revolução no conhecimento. O rigoroso inverno de 1619 imobilizou o exército de Maximiliano da Baviera. Um percalço militar irrelevante para o desfecho da Guerra dos Trinta Anos, que ensangüentaria a Europa, mas que teve inesperada e decisiva importância para a Filosofia e a ciência moderna.

René Descartes, jovem francês de 23 anos engajado nas tropas bávaras, aproveitou o frio para se isolar em um quarto de estalagem nas cercanias de Ulm, na Alemanha, e - como era de seu gosto - passar dias em febril atividade intelectual. Na madrugada gelada de 11 de novembro, as centelhas de seu cérebro explodiram em sonhos agitados - em um deles, o Espírito da Verdade lhe abria os tesouros da Ciência. Na manhã seguinte, superexcitado, Descartes concluiu estar no limiar de uma “ciência admirável".

"Penso, logo existo", sua máxima mais conhecida e que viria a ser a viga
de sustentação do racionalismo moderno começou a nascer naquelas horas.
Nas imagens dos sonhos, o jovem pretendeu ver símbolos de iluminação e
indicadores da missão a que deveria consagrar sua vida: unificar todos
os conhecimentos humanos sobre bases racionais. Foi ali, ao pé de uma
estufa a carvão, a espada inútil encostada à parede, que Descartes pela
primeira vez teve a idéia de aplicar a álgebra à geometria e a
Matemática a todas as coisas. Ele desempenhou com tamanha habilidade a
tarefa de dar novos al cerces ao edifício do pensamento que passou à
História como o "pai da Filosofia moderna", cuja obra é o ponto de
partida obrigatório para se entender as origens do modo de pensar que
tornaria possíveis as revoluções científicas dos séculos seguintes.

Mas isso não estava nos cálculos do lar de Descartes, uma próspera
família burguesa radicada entre Tours e Poitiers, no coração da França,
e tradicionalmente dedicada ao comércio e à Medicina. Graças a uma bem
azeitada estratégia matrimonial, no final do século XVI os Descartes
tinham-se ligado a famílias ricas e notáveis da província - os Sain e os
Brochard -, e estavam em franca ascensão social. Como era de se desejar
para um gentil-homem daqueles tempos não de todo esquecidos do passado
medieval, o avó Pierre combatera nas guerras religiosas; a mãe, Jeanne,
era filha do tenente-general de polícia de Poitiers. E Joachin
Descartes, o pai, chegou a conselheiro do rei no Parlamento da Bretanha
título com o qual é identificado na ata de batismo de René, nascido em
La Haye-Touraine, a 31 de março de 1596, terceiro e último filho do
casal.

Jeanne Brochard morreu tuberculosa um ano depois e ninguém dava um
vintém pela sobrevivência do filho. Ele herdara da mãe os pulmões fracos
e uma tosse crônica que jamais o abandonaria. Mas o menino de aparência
delicada tinha a mente ágil, e Joachin viu nele seu sucessor nos
negócios e no Parlamento. Decidido a preparar René para um futuro
brilhante, enviou-o em 1606 para o colégio jesuíta de La Flèche, às
margens do rio Loire. Fundada apenas dois anos antes, graças à
generosidade do rei Henrique IV, o fundador da dinastia Bourbon, a dos
Luíses, a escola já era considerada uma das melhores da Europa. Em 1610,
quando o soberano morreu e seu coração foi transladado para a capela de
La Flèche, o menino René Descartes, monarquista convicto como seria por
toda a vida, assistiu emocionado às solenidades.

Como sua saúde frágil era notória, Descartes recebeu permissão para
ficar na cama quanto quisesse - o privilégio era igualmente um prêmio a
seu brilhante desempenho escolar. Adulto, Descartes manteria o hábito de
trabalhar no leito e cultivaria a mesma solidão dos tempos do La Flèche,
a ponto de ter tomado, ainda jovem, a decisão de não casar. Mas teve lá
suas aventuras: em 1635 nasceu Francine, sua filha com Helena, uma
criada. Tampouco seria o sucessor do pai, missão assumida pelo filho
mais velho, Pierre. Mas a herança paterna permitiu-lhe viver igual a
outros gentis-homens de seu tempo: de forma modesta, mas sem trabalhar.
Havia outras heranças a considerar, contudo. O século XVI virara de
ponta-cabeça a vida do homem ocidental. Navegadores e aventureiros

rasgavam mares e continentes, descobrindo terras e povos.
A efervescência cultural da Renascença criara uma vaga que não cessava
de afogar as velhas certezas da Filosofia e da ciência baseadas
sobretudo nos escritos do grego Aristóteles e na autoridade da Bíblia. O
prestígio do Estado e da Igreja estavam igualmente corroídos pela
dissidência política e pela Reforma protestante. Um novo mundo nascia.
Mesmo em retirada, porém, a velhas instituições permaneciam, no início
do século XVII, robustas o suficiente para queimar na fogueira um certo
número de pensadores atrevidos.

A Europa sabia então possuir músculos capazes...

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